Conferência doutoral «Filosofia, Sofrimento e Serenidade»
Data: 08-06-2026 14:30
Local: Sala 248 do Colégio do Espírito Santo (Universidade de Évora)
Larissa Dantas (UFJF)
Sofrimento e serenidade: meditações heideggerianas sobre o habitar contemporâneo
Resumo: O presente seminário pretende estabelecer uma meditação introdutória sobre a relação entre sofrimento e serenidade no pensamento de Martin Heidegger, tendo no horizonte da análise a crítica do pensador no que tange ao modo técnico de habitar o mundo contemporâneo. Aceleração contínua, funcionalidade utilitária e vigência majoritária do pensamento calculante são os estigmas de nossa época. Nesse contexto, o sofrimento emerge como uma profunda expressão de desenraizamento existencial, como uma suspensão do próprio mundo. Assim, partindo da noção heideggeriana de serenidade (Gelassenheit), pretende-se compreender um modo de ir ao encontro das coisas mediado por uma abertura não dominadora e não manipulativa da própria existência. Em outras palavras, um modo de habitar fundamentado no “deixar-ser”, na capacidade de acolher o próprio acontecimento do mundo, em seu mistério, silêncio e finitude. Nesse escopo, o seminário buscará refletir sobre como experiências-limite, como o sofrimento e angústia, podem ser registros que rompem com automatismos cotidianos e reabrem uma possibilidade de aproximação originária com o Ser, com a temporalidade e com as alteridades partícipes da existência. A serenidade, por sua vez, será compreendida em seu caráter de disposição meditativa: uma chave hermenêutica capaz de rearticular o eixo com que o Dasein assume o seu próprio modo de habitar o mundo.
Pedro Rauchbach (Unioeste)
Filosofia, urgente!
Resumo: Nossa pesquisa visa salientar alguns dos aspectos desenvolvidos na produção de nossa tese. A partir da análise da filosofia do pensador sul-coreano Byung-Chul Han, que, em certa medida, propõe uma continuidade em relação a autores como Michel Foucault e Theodor Adorno, buscamos questionar as modificações ocasionadas pelas formas de poder na entrada do século XXI. Han observa que já não vivenciamos um poder estritamente disciplinar, como propunha Foucault, mas sim um poder de caráter psicopolítico. Nesse sentido, os novos mecanismos de dominação visariam muito mais à estrutura psíquica do indivíduo do que à antiga dominação ortopédica, que incidia sobre o corpo. A consequência disso é um mundo de excessos em todos os sentidos: excesso de informação, de estímulos e de desempenho. Os indivíduos se comunicam excessivamente, estimulam-se a todo momento e buscam constantemente atingir metas que, de alguma forma, asfixiam o tempo. Essa profusão acaba por gerar uma série de sintomas, como a aceleração temporal, a estupidez midiática, o desejo material excessivo, assim como problemas de ordem psíquica que se proliferam cada vez mais em todos os cantos, a saber: burnout, ansiedade, depressão, entre outros. Diante de uma subjetividade evidentemente adoecida, indagamo-nos se a filosofia ainda pode ser pensada como uma espécie de antídoto para tempos caóticos. Assim, por meio de uma análise do conceito hadotiano de Exercícios Espirituais, almejamos encontrar uma possibilidade de resposta para problemas prementes do mundo atual. Talvez, ao nos apropriarmos desse conceito do autor francês — adaptando-o, evidentemente, aos novos tempos, algo que o próprio autor incentivava —, possamos pensar velhos exercícios de novas formas, assim como novos exercícios para velhos e novos problemas. Paradoxalmente, a filosofia como forma de vida, algo que exige tempo e reflexão, talvez seja urgente.