I Jornada Física e Filosofia em Diálogo: Do que falamos quando falamos de "matéria"?
Data: 04-11-2022 09:30
Local: Auditório da Biblioteca Central
Haverá uma realidade "última" (ou "primeira") de que seja feito o universo?
No decurso das transformações do cosmos, na constante mudança e no jogo das eternas (?) permutas decorrentes da geração e da corrupção de todas as coisas, haverá algum "princípio" permanente que sustente e dê estabilidade a esses processos?
Ou serão vários os pretensos elementos primordiais — terra, ar, água, fogo, éter — a que tudo se pode reduzir? Se dividirmos sucessivamente uma coisa, será que chegaremos, em algum ponto, a realidades mínimas e indivisíveis — os chamados átomos — como sustentaram alguns filósofos da Antiguidade (Leucipo, Demócrito, Epicuro, Lucrécio)? Ou seremos reconduzidos ao "irracional" do infinitamente divisível?
Estas foram as perguntas que, entre o final do século VII e o início do século VI a.C., nas cidades costeiras da Ásia Menor (Mileto, Éfeso, Clazômenas...), despertaram e sustentaram o pensamento filosófico grego.
Uma das interpretações físicas e metafísicas mais antigas — e mais persistentes ao longo da reflexão filosófica e científica ocidental — orientou-se para a noção de uma "matéria-prima" ou, por outro lado, de uma enérgeia em ato.
Recentemente, David Tong, Professor de Física Teórica na Universidade de Cambridge, numa conferência intitulada The Real Building Blocks of the Universe, retomou a antiga interrogação: "Do que somos feitos?"
A proposta de Tong, no âmbito da física fundamental contemporânea, conduz-nos à teoria dos campos, na qual a matéria é uma realidade relacional, sugerindo o abandono de uma ontologia materialista radicada na ideia de partícula.
Mas, afinal de contas, de que falamos quando falamos de "matéria"? Ou de "energia"? Ou de "partícula"? Ou mesmo de "realidade"?
O que significa dizer, como pretende Tong, que, de algum modo, "tudo" já estava presente no Big Bang? Estaria lá a Passacaglia em Dó menor (BWV 582) de J.S. Bach? Estariam lá todas as potencialidades do ser?
Diante do "ser real" e do "ser necessário", não teremos de conceber um anterior "ser possível maior que todos os deuses"? (Fernando Pessoa)
E que dizer das atuais perspetivas físicas e filosóficas que procuram pensar a matéria como vibrante, expressiva e até relacional?
O que nos move nesta Jornada é um fito humilde: será que físicos & filósofos se entendem — ou se desentendem — quando usam termos como "tudo", "nada", "matéria", "relação", "realidade", etc.?
Haverá sobre estas questões um olhar duplo e recíproco, físico & filosófico? Teremos de arriscar uma "dupla verdade"?
Será, afinal, que é a falar que a gente se desentende? Ou será, como propõe George Steiner (A Ciência terá limites?), que estamos hoje nos confins extremos do "modo grego" de perguntar (modo físico-metafísico) e que o espanto inaugural da filosofia pré-socrática precisa, hoje, ser cultivado a partir de um novo modo de perguntar?
Que fazer, hoje, da famosa pergunta grega: "O que é...?"
ORGANIZAÇÃO: JOSÉ MARIA SILVA ROSA JOSÉ AMOREIRA ANDRÉ BARATA